Frustrações metafísicas

Esse, como vocês podem ver, é meu livro de cabeceira, e ele não tem quase nada a ver com meus estudos, pelo menos no momento, mas estou lendo por puro prazer. Não resisti ao título, e agora que tenho o poder das bibliotecas eu o estou usando sem nenhuma parcimônia. Lotes e mais lotes de livros eu carrego para casa de bicicleta, isso sem contar o que eu leio nas bibliotecas presenciais. É uma maravilha.
Agora, porque frustrações? Quero deixar bem claro que todas as minhas aulas estão sendo fodas, estou estudando coisas fodas e realmente aprendendo alguma coisa. Eu não lembro qual foi a última vez que estive em uma sala de aula sem que isso fosse uma completa perda de tempo. O legal que isso depende completamente do trabalho feito. Quanto mais eu me empenho, maiores são os resultados, e eu crio meu próprio método e ritmo. Muito legal. Porém.

Fiz uma apresentação no meu seminário de história. Estamos estudando peregrinações na idade média, um assunto de fodices abundantes e variadas. No espírito, eu preparei uma apresentação cheia de citações, imagens, mapas e histórias de viagens incríveis. Eu queria falar de terras além do mundo conhecido, as maravilhas do oriente, a vontade do homem diante dos perigos. Cidades de ouro, tumbas cheias de mistério e poder, templos cintilantes.
Pois é, só que meia hora é muito menos tempo do que eu imaginava, então a apresentação foi correta, porém não mágica. E isso me fez pensar sobre o que me estava incomodando, não na matéria em si, mas nas aulas. A falta crônica de magia no coração.
Eu sei que estou na alemanha. E que este é meu primeiro semestre. Mas certas coisas começam a irritar depois de um tempo. Vejam por exemplo minha aula de metafísica. Não importa o livro que eu pegue ou o texto que o professor passe, sempre chega um ponto em que aparece o seguinte:
“Mas é óbvio que ninguém em sã consciência acredita em [X].”
“Sendo que [X] é falso, vou continuar com minha argumentação.”
E o meu preferido:
“Dizem que no oriente as pessoas acham [X], mas eu não acredito.”
X é, óbviamente, tudo o que acho legal. É claro que eu sempre tento me colocar nos pés do autor, ver o mundo da maneira dele, comer o que ele come no café da manhã. Naturalmente eu concordo com tudo que meu professor acha, especialmente na hora da prova. Mas chega um momento que meu ser mágico quebra as correntes e arrasa tudo que vê pela frente. Como estudar nessas horas?
Como sempre, a resposta está em Borges. Salvação na literatura. Isso acarreta a depressão de não ser Borges, de não poder ser Borges, mas pelo menos já é uma mudança. E nesse caso o resultado está mais para Lewis Caroll. Divirtam-se.
P.S.: No link acima, além dos contos tem tudo o que faço para a faculdade, se estiverem interessados. Além de um bando de links legais.